La Mision – Relato da Prova

Neste último mês de fevereiro estive presente em uma da mais desafiadoras prova da minha vida, senão a mais (até agora). Foram 27 horas non stop em uma prova de semi-suficiência na montanha.

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A prova se chama La Mision é realizada em Vila la Angostura na Patagônia Argentina e tem como desafio a semi-suficiência, ou seja, carregarmos todos nossos equipamentos necessários e obrigatórios além de nossos alimentos e bebidas nessa ultratrail. Para ter uma noção minha mochila pesava em média de 5 a 6kg, dependendo de quanto eu estava carregando de líquidos. Isso porque eu não acampei pois se encontrava mochilas majestosas! Os líquidos eram reabastecidos nos rios, que de desgelo possuíam água potável.

Eu realizei a Half Mision de 80k, mas a prova principal era de 160k. Esta seria minha primeira ultramaratona após uma lesão que tive, portanto comecei com parcimônia!

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O clima estava bastante quente, diferente dos anos anteriores, o ar estava bastante seco e as cinzas vulcânicas estavam bastante dispersas. Ao longo do percurso vi muita gente passando mal, vomitando e desistindo em razão de respirar as cinzas. Uma menina me disse sentir ardência nos olhos já na metade do percurso e logo parou. Não vou negar que isso também tenha me feito um pouco mal, mas meu corpo talvez tenha reagido de uma maneira menos agressiva.
Ao iniciarem a chamada para o check in, na largada, conseguimos entrar rapidamente e nos posicionamos bem em frente! O legal é que aparecemos bastante nas fotos e no vídeo da contagem regressiva.

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Larguei junto com uma amiga que estava fazendo a prova de 160k, e que por sinal era mais forte que eu, mas consegui acompanhá-la nos primeiros quilômetros… quando chegamos ao topo da primeira montanha o Cerro Colorado eu ainda a avistava, mas decidi segurar um pouco o ritmo. Dali comecei a ajustar os equipamentos fazer minha primeira refeição além de  administrar melhor meu tempo, ao fundo se avistava o vulcão Tronador e uma paisagem lindíssima para se curtir uns minutinhos ao menos! Mais uns quilômetros chegavamos ao topo do Cerro Bayo, dali em diante eram só descidas. Quando entramos no bosque, já na base do Bayo, eu encontro um outro amigo meu que me acompanhou por mais alguns quilômetros até o topo do 3 nascientes. Já tinham se passado umas 5h e aproximadamente uns 25km, logo mais ao km 35 separariam os corredores dos 80km e dos 160km, mas até ali aquelas companhias já tinham me ajudado muito e me colocado em um ritmo muito bom.

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Quando separamos entrei no bosque novamente e percebi que de repente a quantidade de pessoas havia diminuído drasticamente, questiono minha posição no posto de controle (PC) e ele me indica que eu estava entre as primeiras posições. De repente eu tiro um gás e aumento meu ritmo até encontrar uma menina que seria a 4 colocada, era uma brasileira! Ela me disse já estar fatigada e que iria parar, insisti um pouco, mas ela já estava decidida, estávamos próximo do 1o posto de abastecimento (Camp), metade do nosso caminho, km43.

Ao chegar logo me disseram que eu estava em 4o e que as 3a e 2a colocadas não estavam longe. Acabei sendo bem rápida para o abastecimento, e enquanto as pessoas chegavam e resolviam deitar, descansar, trocar de roupa…eu segui a diante, “bom vou achá-las”! Era caminho para o monte (segundo eles) mais desafiador: o O’connors, este com maior altimetria acabei sendo avisava que passaria umas 5h sozinha nele, portanto era para me reabastecer bem. Já estava noite e notei dois meninos saindo um pouco à frente de mim, bom não me amedrontei e fui! Sozinha mas fui! Um dos equipamentos obrigatórios era a headlamp que iluminava as marcações como os olhos de gato que te iluminavam a trilha pela noite. Lembro de quando eu subia eu sempre avistava a luz dos meninos um pouco ao longe mas sabia que eles estavam ali… logo quando sai do bosque e olhei para trás vi toda a cidade iluminada, mas a subida mal tinha começado.

Neuquén

Ao subir toda vez que eu erguia a cabeça para procurar a trilha eu via aquela linha de pontos que se confundia com as estrelas, sim eram subidas íngremes que pareciam infinitas…e quando eu achava que tinha superado um pico lá vinha outro escondido atrás. Foram umas 5 vezes que acreditei ter chegado ao topo! Dai eu encontro uma placa! “Jesus te ama” obrigada Jesus então eu já cheguei!? Que nada! Lá vinha outra! Realmente eu demorei umas 3h só para chegar ao topo! Segundo os cálculos então seriam mais umas duas horas para descer. Nisso eu escuto um barulho de rádio, e já era 1h da manhã! Eu sortuda encontrei um controlador no meio da montanha, alguém havia informado que eu estava sozinha e ele então foi patrulhar, desceu comigo por aproximadamente 1h! Foi mais uma das minhas salvações! Conversar com aquela pessoa aquela hora foi maravilhoso! Ele disse que preferiu patrulhar para se manter acordado, além do que as marcações dentro do bosque eram bem mais complicadas de se ver a noite e no fim fiz uma amizade muito boa!
Ele logo me informou ao chegarmos no PC, você é a 3a colocada e a segunda está há uns 30min ela não está bem e você com esse ritmo alcança ela! Quando dizem isso até parece provocação, algo do tipo, corra mais, apesar de já estar 13h correndo, está fácil! Bom passei o resto da madrugada sozinha correndo dentro do bosque, eu só avistava de vez em quando aquela baita lua, minguante, mas enorme, e amarelona! Quando eu achava que estava perdida eu olhava para ela e sabia a direção certa novamente!

A partir daí começou a esfriar, tirei todos os casacos de dentro da mochila, além das luvas e me mantive aquecida até amanhecer! Todo PC que eu passava eu encontrava uma série de pessoas paradas em volta da fogueira, mas parar não era uma opção. Comecei a subir novamente o 3 nascientes e avistei o nascer do dia. As pernas já doíam e eu só pensava em chegar na última montanha para terminar. Quando atingi o Km 70 perguntei ao PC, quantos quilômetros faltam? E ele bem tranquilo me disse “só 12”, ai eu achei que era reta final, e que podia dispender todas minhas energias. Só que não. Quando eu olho eu vejo a última montanha, o famoso Buol. Pra que!? Pensava que só podia ser ignorância dos organizadores aquilo (no bom sentido). Como assim!? Isso não é corrida é escalada! Juro, era uma parede vertical, cheia de pedras soltas, eu nem queria olhar para baixo, minhas pernas estavam travadas, eu tinha quebrado um trekking pole e só tinha me restado o outro. Acabei achando um pau para substituir o segundo e a escalada começou, novamente a cada vez que eu achava que estava chegando, aparecia outra parte escondida dizendo “suba mais”, quando encontrei o PC lá em cima eu pensei, cheguei, mas a inocente sabe nada. Ele me responde “mas un ratito”. Questiono sobre a segunda colocada e ele responde que a segunda era eu! “Quanto mais falta!?” A resposta era foi mais uns 10km. Que!???? Faz mais de uma hora que estou escalando isso!!! Não era possível!!! E enfim continuei escalando! A água tinha terminado, era já meio dia e o calor totalmente escaldante! Pensei naquele momento, por que nenhuma viva alma me contou dessa montanha!? Eu estava já exausta, morrendo de sede e o O’connors parecia carrossel perto daquilo! As pedras continuavam soltas e quando você olhava para as beiradas você via precipícios! Dai pensei: “ah claro agora entendi a função do capacete!”. Claro que isso é uma ironia porque com aquela queda nem se brinca!

Superado o Buol eu via de longe Vila La Angostura, e pessoas!!! Claro estávamos saindo já das montanhas e entrando nos parques, eu continuava a questionar a distância e parecia que ela nunca mudava! Dai a inteligente resolve se perder, nos 5km finais. Pois eu vi alguém se aproximando e não entendia quem era, logo, sem essa pessoa passar por mim eu escuto a sirene tocando… era o vencedor da prova dos 160k, ele chegava junto comigo. Mas espera ai, por onde ele passou? Como ele chegou? Onde eu estava? Perdida claro! Acabei dando um nó nas trilhas e cai na rota do outro lado da montanha, devo ter ganho uns 5km na conta. Se 80k era pouco…bom mas contam as más línguas (outro que se perdeu também) que fomos os únicos a ver uma cachoeira maravilhosa!

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Mas tudo bem quando cheguei meu segundo lugar estava lá me aguardando!!! O intervalo para a terceira era de mais 2h.
Outra vez não nego que me decepcionei na chegada pois achava que por ter me perdido nos quilômetros finais eu seria desclassificada… mas segundo a organização eu tinha passado por todos PC importantes então aquilo não importava.
Há quem questione porque os tempos aumentaram dos outros anos?
Bom eles inverteram a rota e todos tempos sofreram um acréscimo, há quem concorde que o Buol como surpresa final foi o ápice do exaustivo trabalho psicológico ao qual nos submetemos. E uma benção aos tombos na sua descida! Eu não nego que uma hora cai de bunda, sentei olhei para o céu e fiquei viajando…algo do tipo me busquem que daqui não levanto mais!
Mas tudo absolutamente tudo valeu muito a pena, e claro que eu voltarei para os 160k, É CLARO!
Quando eu falo que isso não é só experiência, é vida, é ter histórias para contar, continuam dizendo que não sou muito normal! Mas ao ver essas fotos você também tem vontade de estar lá, você tem!

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