Qual prova de Montanha mais difícil do Brasil?

Bom, em menos de um mês, realizei duas provas (não, você não leu errado: EM MENOS DE UM MÊS, DUAS PROVAS), ambas consideradas as mais difíceis do país. São duas corridas muito duras, mas de diferentes maneiras. Então qual escolher se você está na dúvida?
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Morro dos Perdidos

Correr as duas foi uma jogada de risco que fiz, mas quem me conhece sabe que quanto pior é a coisa, mais eu quero.

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Pedra da Mina – Serra Fina

A primeira delas foi a Half Mision Serra Fina, que tem aproximadamente 75km de distância e uns 6.000m de desnível positivo acumulado. Essa prova dá 2 pontos para a Ultra Trail Mont Blanc (UTMB) e/ou 4 pontos para a Internacional Trail Running Association (ITRA). Já a Maratona dos Perdidos tem 44k de distância, 3.000m de desnível positivo acumulado, 1 ponto UTMB e/ou 3 pontos ITRA.Para começar, você deve se basear nos pontos UTMB para cálculo, já que ITRA é um sistema novo e ninguém sabe usar direito. A ideia da ITRA é controlar, de alguma maneira, essas medidas de pontuação, evitando que outras provas continuem se baseando na prova chave do Mont Blanc.

A Half Mision tem, praticamente, o dobro de desgaste da de Perdidos, isso é real. Além de ter o dobro de altimetria acumulada e quase o dobro de distância, também tem um terreno muito mais técnico. São muitas pedras e escarpas numa verdadeira escalada. A quantidade de cordas também é maior e algumas inclinações  quase impossíveis, em pontos singulares, ou seja, travada. Na média geral, talvez a inclinação da prova de Perdidos seja maior, mas é constante e ergonomicamente realizável para a minha estatura de 1,50m, diferente da de Serra Fina, que me pregava peças absurdas.

Ao fim de ambas fiquei completamente enlameada. O solo era o mesmo, de uma consistência péssima, e diante das chuvas que ocorreram previamente pioraram as condições das trilhas. Em Serra Fina, essas trilhas já eram demarcadas e o solo estava mais trabalhado (há muito trekking na região). Já em Perdidos, principalmente na subida do cume de Araçatuba a consistência do solo estava um pouco pior pois se formavam piscinas de lama em extensas dimensões. Muitas das trilhas de Perdidos foram criadas apenas para a prova, eram novas e o solo se comportava como um chiclete, grudava e não queria soltar. Tropecei algumas vezes, em ambas as provas, e minha imagem era deplorável. Em Perdidos cheguei a comer lama, mas um amigo me ajudou a limpar os olhos, pelo menos.

A maior desvantagem de Perdidos é que a prova não tem infraestrutura para funcionar à noite e o tempo total é bastante reduzido. Fiquei com um grupo em que todos tinham chegado no ponto de corte do km 23 com 4h30min (que era de 5h), saímos e fomos cortados todos juntos a 2km do final. Os que passaram após as 4h10min do km23 estouraram o tempo de prova das 10h. E é aí que está a dificuldade deles (Perdidos): o tempo. Pelo que notei, apenas 9 das 22 mulheres concluíram. Na minha categoria haviam 3 e nenhuma completou. Aí você faz toda uma prova e é desclassificado por estourar o tempo limite. Parece que a prova não te incentiva a querer terminá-la, só te desafia para tal.

Então, por que o corte no km 42? Segundo eles, por uma medida de segurança. Inscreveram quatrocentas pessoas para correr a prova de 13k, que patrolaram esses quilômetros finais e a piscina de lama virou spa. Tive amigos que realizaram esse trecho em 25 minutos outros em 1h20. Bom, o último teve 50 câimbras, o que foi um caso extremo. A questão é que me prenderam ali e demoraram quarenta minutos para me buscar. Já anoitecia, esfriava bruscamente, comecei a ter hipotermia e pressão baixa aguardando o tal resgate que não vinha nunca (em 2 quilômetros de distância). Não era tempo suficiente para completar a prova nesses minutos aguardando resgate? Não sei se era receio deles porque anoitecia, mas um amigo que estava 5 minutos na minha frente e conseguiu ir adiante, confessou que se arrependeu por ter seguido. Ele completou a prova com 11h20 e disse que se machucou muito no trecho, pois começou a anoitecer e a dificuldade aumentou muito. Todos os tempos finais aumentaram em relação à prova de 2014 e não sei se esperavam que ocorressem retardatários, mas esse corte final não constava no regulamento e foi uma surpresa para nós. Independente de classificação, às vezes só cruzar a linha de chegada satisfaz o esforço da pessoa, o que é o meu caso. Existem provas que querem que você faça isso, lhe auxilia, principalmente quando o clima causa adversidades. Bem, eu fiquei decepcionada por chegar tão perto e ali, na reta final, e ser surpreendida com um novo planejamento. O pior foi ver um menino que estava passando mal e vomitando, aguardando pelo resgate há 2 horas, uma vez que realizariam um resgate econômico, em que buscariam todo mundo junto. E quando finalmente o levaram, a ambulância estava indo embora.

Tudo bem, estourei o tempo prova, culpa minha, talvez eu tenha tido a audácia de no meu primeiro ano de provas de montanha tentar realizar as duas mais difíceis no período de um mês. E Perdidos é uma prova direcionada a pessoas com um preparo extremamente alto por esses tempos muito curtos. Terminar é possível, acredite, mas com um limite de tempo extremo. Conclusão: preparo direcionado.

Para Serra Fina, o povo tinha o mesmo objetivo: completar o desafio, indiferente a pódio, resultados, tempo…a alegria era contagiante, os staffs estavam um pouco perdidos, mas foram sempre queridos, atentos, verdadeiros parceiros. Aqueles que não concluíram Serra Fina foram, basicamente, por escolha pessoal. Já o clima de Perdidos era de algo “elite”; as pessoas que concluíram eram todas reconhecidas no cenário nacional, mas a rapa do corte foi um grupo excelente com os quais dividi 5h de bela companhia! Obrigado, galera. Sei que ali muitos irão a Mont Blanc esse ano, portanto são pessoas também muito capacitadas.

O mais engraçado foi escutar de um corredor que eu deveria ter treinado mais, enquanto que ele nem vestiu os tênis e entrou na prova já estando lá com inscrição feita.

Para terminar o desfecho, Perdidos anunciou uma promoção chamada: “Superando limites” e eu me inscrevi. Em uma semana estamparam minha foto no Facebook escrito: Parabéns Raissa, iremos te entrevistar durante a prova, e você irá aparecer no Globo Esporte! Nossa, minha emoção foi imensa! Todos os meus amigos viram e comentaram! Alguns dias se passaram e ninguém entrou em contato comigo, pois então eu fui procurar… Recebi uma desculpa esfarrapada do repórter, que me passou uma bela conversa. Ok, deixei por isso mesmo. Agora, me pergunte se no dia da prova alguém veio conversar? Justificar, dar alguma explicação ‘olha não vai rolar’, etc.., que nada, nem meu contato eles se importaram em pegar. Então, porque veicular minha foto para todo o Brasil ver e fazer isso? Realmente, o conjunto de fatores da TRC me deixou decepcionada e ofendida. Planeje um bom corte, algo viável para escape ao km23, dê valor também a nós, que colaboramos para que a prova ocorra. Não somos elite, mas ajudamos o esporte a crescer e ter reconhecimento.

O objetivo dos “loucos” é, simplesmente, completar uma prova e nada a mais. Cortar esse objetivo a 2km do final foi um choque, um banho de água fria. A filosofia foi diferente de todas provas das quais eu havia participado até então. Concluí que, sim, são provas com objetivos diferentes. Serra Fina é organizada por argentinos, e o lema deles é ter a “Misión Cumplida”, há tempo para isso. O tempo limite esse ano de Serra Fina era de 28h e eles abriram 2h a mais e receberam pessoas com até 30h, visto as intempéries do clima. Em Perdidos tivemos mais oportunidades para desenvolver a corrida, porém com o tempo bastante apertado, a prova se torna quase exclusiva para pessoas de superpreparo. Eu sei que ainda sou uma mulher normal, vim com uma carga da prova prévia, mas me senti de objetivo cumprido apesar do corte a 2km da chegada. Provavelmente eu fecharia a prova com 11h e o tempo limite era 10h. Também houve tempos maiores em 2015 do que nos anos prévios, novamente gerados pelo clima, mas não houve folga, nem uma gordurinha. Um amigo tinha fechado 2014 com 9h e esse ano fechou a 40 segundos das 10h limite. Já uma menina fez 8h40 em 2014, e esse ano completou com quase 10h.

Em compensação tive oportunidade de estar em todos os picos e ter vistas incríveis.

Sobre o visual, ambas são lindas. Araçatuba, com 1650m (Perdidos), te dá um visual pleno daqueles cumes que não chegam nunca. É um pico atrás do outro e, quando você pensa que chegou, ainda falta altimetria a ser atingida. Um sentimento parecido com do O’Connor da Argentina. Quando finalmente vimos um pico exuberante que chamava bastante atenção, os cálculos não negavam, era lá, e os meninos há horas já expressavam um “não acredito”.

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Morro Araçatuba

Já Pedra da Mina com 2800m (Serra Fina), é considerada a 4ª maior montanha do Brasil, também com 360º de visão. De lá você vê, inclusive, a Serra do Mar e o estonteante Pico dos Marins. Há também um livro de cume que você pode assinar, como se fosse um livro de presença. Tive a sorte de presenciar o pôr-do-sol de lá, imagem que vou guardar para a vida.

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Pedra da Mina

Sobre as marcações, as duas foram boas, mas a gente sempre acha uma falha e sabe de histórias de pessoas que se perderam. Senti-me confusa em alguns trechos de ambas as provas, mas consegui tomar a decisão certa, tudo devido ao estudo prévio. Acredite, é importante estudar os trechos antes da corrida.Ainda sobre a TRC em maio desse ano: eles promoveram o Endurance Challenge por aqui. Bem, as inscrições estavam encerradas e nem havia percurso/altimetria publicado. Um mês antes, a prova que se chamaria Agulhas Negras e que estava sendo vendida desde dezembro como tal, não seria realizada  em Agulhas Negras. E com uma mudança de trajeto, conseguiram cortar 200 pessoas em 20km de prova. Não realizei a prova, apenas fiquei sabendo dos ocorridos.

O La Mision Argentina, que já participei, é promovido pela mesma organização de Serra Fina. De modo geral, é uma prova bastante simples e te propõe uma autossuficiência, o que gera uma base incrível para corridas de montanha.

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Cerro Colorado – Vila la Angostura – La Mision Argentina

Chile e Argentina têm essa cultura há tempos, nas provas de lá não há espaço para erros. Nós ainda estamos caminhando e desenvolvendo, isso leva tempo. Sem críticas, pois cada um tem seu estilo, que nem sempre agrada a todos. Importante é se sentir bem.E sobre realizar as duas juntamente, não sei se é uma boa ideia, só se as datas mudarem. Tive um “fartão” depois dessas provas que nem sei quando vai ser meu próximo desafio.

De modo geral, o que mais gosto nessas provas são as amizades que faço. Às vezes, você fica horas correndo com as mesmas pessoas e, no fim, parece que você os conhece há anos. Em Perdidos, passei horas com um mesmo grupo, todos muito guerreiros lutando pelo corte. Posso dizer que fomos campeões também, porque ninguém se deu por vencido e lutou até o último segundo. Parabéns para nós!

Por fim, algumas provas sabem mexer muito bem com o marketing diferente de outras, não se deixe levar, busque e converse com pessoas que já realizaram tais provas. Há algumas que não são tão divulgadas mas te dão prazer muito maior do que outras que tem por trás grandes marcas.

Aos que não sabem, comecei com as ultras esse ano, e a lição aprendida foi: dê tempo ao tempo, sem ansiedade. O tempo ideal entre essas provas é de no mínimo, 3 meses. Ainda não sei como meus joelhos estão bem. Mas eles estão ótimos, acredite!

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Maratona dos Perdidos

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Pedra da Mina – Serra Fina

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2 pensamentos sobre “Qual prova de Montanha mais difícil do Brasil?

  1. Parabéns pela garra e pela coragem em encarar essas duas “pedreiras” em tão pouco tempo!
    Não sei o que está acontecendo na TRC… primeiro escorregando feio no Endurance Challenge e agora na Maratona dos Perdidos…
    Tomara que as organizações brasucas passem a prezar mais pela qualidade do evento do que pela aparência… Se a qualidade for alta, nem precisarão investir muito em marketing, o resultado será automático. Enfim, Boas trilhas!

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