Relato CCC 2017 

Você quer, você pode. 

Sim, nem todos nasceram com a melhor genética da terra. Existem uns Kilian, outras Nuria. Mas existem pessoas como eu, normais, persistentes, teimosas. 

Há uns 6 anos eu vi meu irmão realizando uma prova que me encantou de todas formas. Ela se chamava La Mision. Eu estava morando fora e aprendendo o que era essa tal corrida, ultra trail eles chamavam. Sim, meu irmão sempre foi minha inspiração. Iniciando os treinamentos para o La Mision 80km, que realizei em 2015 conheci algumas pessoas que me explicaram o que seria a tal UTMB – Ultra Trail du Mont Blanc, e a partir dali em meados de 2014 eu decidi tentar atingir isso até onde meu corpo permitiria. Escolhi a CCC 101km, chamada Little Sister, que seria a meia volta final da UTMB. Em dezembro de 2016 fui sorteada, e decidi então realizá-la, que ocorreu em setembro de 2017. Se você notar até eu conseguir chegar nisso, passaram-se alguns anos. Eu não fui a melhor corredora, nem a melhor brasileira, nem a melhor gaúcha, talvez uma das mais jovens, mas isso não desmerece o trabalho envolvido.

Terminei quase semi-morta. Mas de alma lavada. Foi um trabalho árduo, exigiu dedicação, dinheiro, e acima de tudo muito esforço. No meio da prova a gente sempre pensa: “por quê?!.”

A largada da CCC ocorreu em pelotões, sai no 2o das 9h15, sozinha, logo encontrei duas brasileiras Manu Rios e Ana Osório que estavam também por lá. Ambas fizeram apoio importante em momento que nos cruzávamos, onde sempre nos incentivávamos.


Minha primeira metade da prova foi muito boa, fechei um dos meus melhores 50km com um acumulado positivo absurdo, mas logo viria a chuva e junto dela um frio bastante severo, e claro a noite. Quando cheguei na divisa da Itália e Suiça, chamada Col Ferret a neblina baixou muito. O corpo umideceu, e minha roupa, que não estava apropriada, encharcou. Decidi continuar para trocar mais tarde, mas cada vez era pior. Então a chuva iniciou. Mesmo com impermeável fiquei extremamente úmida e com muito frio. 


Estava chegando em Champex km56, lá encontraria a Nivea, esposa de um colega que também estava correndo, Luiz Facioli de SP. A Nivea foi essencial para mim. Sem sua ajuda acredito que eu não tivesse continuado, sabe anjos que Deus coloca no nosso caminho?! Ela me aqueceu, e me deu um apoio muito forte em um momento que eu passava por um estresse extremo. A chuva e a sensação térmica de uns -7 graus na montanha tinham definitivamente acabado comigo. Não só comigo, com muitas outras pessoas. Meus ouvidos já haviam estourado diversas vezes, e eu tremia de uma forma que perdia muita energia. Quando estávamos na montanha o vento era cortante e era impossível caminhar ou permanecer parado, aquilo de certa forma acelera a gente. Soube de um problema de cegueira tanto na Manu Villaseca quanto na Fernanda Maciel, onde ambas deixaram a UTMB principal. Saúde é tudo né?! 

Fiquei parada em Champex quase 2h, liguei para algumas pessoas, conversei com meu amigo Xandao que havia já saído da prova, e com o Gustavo que a realizou no ano anterior, com a Leo que tinha concluído a TDS; todos me deram um apoio importante para continuar. Após 2h resolvi deixar Champex junto de uma italiana: Enrica, que também foi um apoio importante e esteve comigo toda madrugada. Alguns perguntaram do tempo parada e do pace ter diminuído tanto. Às vezes uma prova exige coisas diversas. Exige psicológico, exige companhia, e o FairPlay é super significativo, você deve mudar seu pace para poder ter alguém perto de você, e eu estava precisando bastante. O clima severo mexeu com nosso psicológico e eu só estava buscando concluir a prova, mesmo no tempo limite. A partir de Trient km72 eu apenas caminhei, escutei outra vez que sabendo administrar a sobra dos cortes, o resultado é apenas cruzar a linha de chegada. Enrica dizia: eu só quero o colete, e não vou mentir que eu também só queria ele, indiferente resultados. UTMB me ensinou muitas coisas. Muitas. Ensinou quem nos valoriza em momentos extremos. Xandao e sua família estiveram comigo, Leonice também. A energia do pessoal estava demais! Aquilo te coloca para cima, boas companhias! Agradeço Família Moschen, inclusive o treinador Togumi e os colegas UPFIT presentes. Foi espetacular e uma das experiências mais incríveis da minha ainda pequena vida. Eu não tive minha melhor performance e talvez isso me incentive a retornar daqui alguns anos. Eu sei que economizei muito, o tempo inteiro, exatamente por nunca ter feito tal distância, depois você pensa se teria sido melhor acelerar, mas ao fim você atinge a meta e é isso que vale. Ao longo do percurso muitas pessoas torcem, tocam os sinos, gritam “Ale, andiamo”. Criancas correm conosco. O povo vê a bandeira no numeral e grita: Brasilll. Então, tudo isso te move, bastante!!! É realmente uma experiência ímpar.


Eu sei que essa é uma das provas mais significativas da terra. A vida é feita para almejarmos sempre mais, claro com humildade e dentro da nossa possibilidade. Talvez eu volve, talvez  não. Como citei, depois de tudo isso fiquei satisfeita com a CCC e não desejo nesse momento a UTMB, mas às vezes a vida toma rumos engraçados e não podemos prever nada.  Aliás, encontrei novamente meu maior ídolo Marco Olmo que nos visitou inclusive. 


Então, se eu recomendo? É óbvio! Você já deve ter escutado isso de diversas pessoas, como eu escutei. Mas é necessário viver para ver. Chamonix é abençoada. Acendi velas para São Bernardo protetor das montanhas do Mont Blanc e certeza que eu pude ser abençoada com essa maravilhosa oportunidade. 

Eu gostaria de agradecer especialmente aos apoiadores Osprey Brasil, Julbo Brasil, La Sportiva Brasil, UPFIT e Converge.

Eu sou Finisher! 

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2 pensamentos sobre “Relato CCC 2017 

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