Relato La Mision Argentina 110km

La Misión 2018 foi novamente épica, como todo ano. Dessa vez, diferente dos anos anteriores, realizados no mês de fevereiro, choveu e muito para a época. Além da chuva, frio. Foi como um replay da CCC, executado com uma melhor estratégia. Largamos às 10h da manhã e rumamos destino Colorado, chegando ao pico se iniciou uma onda de frio e logo veio a chuva. Pelo menos acima do Colorado ainda pude ter o prazer de ter a visão incrível da região, que nos dá de retorno todo sofrimento enfrentado. A subida foi respirando muita poeira das cinzas vulcânicas, mas executei bem, no alto encontrei os amigos Gilson e Gustavo vindo forte, iniciei uma corrida no filo e para a descida com brincadeiras dos argentinos me chamando de “endiabrada”, eu me sentia bem, escutei as vozes da experiência em largar atrás então o prazer era só em ultrapassar e não ser ultrapassada, parece que isso te dá mais gás. Após a descida do Colorado iniciou a subida para o Rocoso, então a chuva veio com vontade. Parei, vesti a primeira térmica e o goretex, toda vez que sentia frio, lembrava em comer algo, e não deixava o corpo esfriar, devido a isso impus um ritmo mais sério. Na subida encontrei o outro amigo: MP, que com seu excelente humor tornou a peregrinação mais alegre. MP tem umas piadas boas na hora certa, e mesmo quando você está morrendo, você tem a última oportunidade de dar uma risada, obrigada MP! Fomos juntos até o km40 onde havia a divisão de rotas, dos meus 110km com os 200km executados pelo MP. A partir daí iniciou a descida e passagem em bosques até o PC do Boquete, e o frio cada vez era mais duro. No Boquete busquei minha bolsa e novamente troquei toda minha roupa, essa foi a lição que tive da CCC…voltar quente e seca (por algumas horas). No boquete notei uma menina que não parou e seguiu adiante, esta seria a primeira colocada que não alcancei mais, de qualquer maneira não me arrependo de ter parado 30min e realizado tudo o que necessitava. Alimentar-se, trocar de roupa, trocar pilhas, pois a noite vinha e vinha cruel. A madrugada inteira fiz contornos em nascentes de rios que desaguavam no lago, e pensa no vento gelado que soprava! Atravessamos muitos rios e córregos alguns que atingiam os joelhos. Uma das trilhas de 11km demorei 4h30 para realizar! Uma trilha muito chata, técnica, com muita lama escorregando, e tudo no meio da madrugada fria. Eu já estava em alerta, pois os meninos haviam contado da dificuldade. Logo me passaria outro menino que finalizaria os 160km, Tiago de Caxias, mais além contarei sua situação vivida. Chegando no Auquinco era continuar seguindo as trilhas, no meio da madrugada. Quando corremos sozinha, a vida transcorre inteira e você pensa em tudo, essa é uma das melhores sensações da ultramaratona, a introspecção que vivemos. Eu estava com tanto frio que liguei o automático e só segui… até Porto Arturo último PC onde conferiram meus equipamentos, km75. Minha mochila por sorte, bem elaborada e mais leve que todos meus amigos, pesava 4,5kg. Tínhamos que carregar muitos equipamentos obrigatórios e ali pediram para ver meu saco de dormir e bivak. Fora isso, muitas roupas, kit de primeiros socorros, tudo fechado em sacos estanques e alguns a vácuo, tudo para conseguir caber em uma mochila de 20L. Devo um agradecimento especial ao Benoit da Raidlight que me ajudou com essa mochila Responsiv20.

Vinha tudo perfeito para mim, mas o tempo não estava colaborando com ninguém e a galera dos 160 e 200 que o diga, eles teriam que passar por um pico que os 110 não ia (sorte minha). Chamado de Asseret, estava com visibilidade zero! Os amigos Gilson e Gustavo com sua experiência preferiram não continuar, e antes que dessem o aviso de fechamento/retorno eles deixaram a prova estando nas primeiras colocações, diferente do Tiago que continuou pelo Asseret com mais 16 pessoas (“os loucos”). Tiago disse que largou a mochila numa pedra e não conseguia mais encontrá-la devido a neblina, que seu saco de dormir voou e ele ficou a esmo por um tempo tentando dormir. Passou a madrugada lá em cima, com mais outros perdidos tentando localizar a rota, sem sucesso. Aos que vieram mais atrás como MP e outros amigos, a rota foi modificada. De qualquer maneira Tiago foi um grande guerreiro enfrentando temperaturas negativas na madrugada. 

O que mais me surpreende no organizador é a criatividade em criar “senderos”. Passamos por rastos de bois, mato pisoteado, meio de rosetas e cactos…é definitivamente uma originalidade incrível o La Mision (rsrs), certeza que as palavras mais utilizadas pelos corredores são xingamentos ao organizador, e por isso é a prova que é! A prova te ensina a gerir tudo que você deve carregar, água só de córregos, comida só a que você portar. Esqueça cintas de marcação, elas só serão vistas nas bifurcações, o lema é “siga o caminho”, essa onda de provas bonitinhas é nota zero no La Mision Argentina. E pessoas como eu, sem frescura, gostam disso. Então se você estiver afim de um desafio notavelmente sem noção, La Mision é a prova. Ela vem de organizadores de corridas de aventura que não perdem os vícios de antigamente. 

Bom foi o que traduziu o último morro a subir antes da chegada, pulando algumas cercas, andando em alguns matos, e quando vi que era possível executar o tempo que os amigos brincaram desafiando, continuei a correr… fechei com 24h09 sendo a 7 pessoa geral a chegar e a 2a mulher, 15minutos atrás da primeira. Se eu estou feliz? Estou vibrante, nunca imaginei um resultado desse porte, essa prova era um teste para um desafio de setembro, que saber como eu reagiria, e foi melhor que a encomenda. 


Pontos que venho observando da preparação. Eu modifiquei alguns esforços, invés de correr 5x por semana, agora corro um pouco menos e faço alguns treinos duplos de natação pela manhã e reforço à noite. E venho inserindo a bike também. A natação me auxiliou muito com uso de trekking poles, bem como o cardiorrespiratório, a bike vem de polimento e regenerativo. E o conjunto deles nos monta como melhor atletas. 

São trabalhos graduais, que vamos inserindo e nos adaptando com o tempo, e venho sentindo resultado! 

Agora é continuar até setembro!

E para aqueles que dizem que não existe gaúcha que representa, sim nós somos muitas!!!!!


E em abril: APTR Videiras, vejo vocês lá!

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